quarta-feira, 19 de outubro de 2011

PÁGINAS SOLTAS

-Pois é, Manuela, depois de ler todo este invejável trajecto de vida, mais entendo porque ao tropeçar em ti, logo constatei que algo me ligava à tua pessoa, meditava Adelino no ruido ensurdecedor do silêncio das palavras entre duas colheradas de sopa, e um olhar furtivo sobre a televisão onde um enfastiadamente bem vestido apresentador debitava matéria de politiquices em ar arrogante de intelectual provinciano.


-É realmente fantástico o teu percurso até agora, e mais vou percebendo porque te revês em muito no livro que escreveste, de forma sublimar, diga-se! entre quatro paredes de uma casa desprovida de vida, onde apenas se ouve o silvar do vento pelas frestas das janelas fechadas e nunca mais abertas desde a partida de quem tal assim entendeu, e quiçá alguma memória de um passado recente no sua já gasta encefálica massa, de tanto usada ser em prol de coisa nenhuma,ou coisa muita, nunca tal se saberá!



-Em tom de brincadeira manifesto a minha solidariedade com a relação que tens com o ferro de engomar para que faça o teu trabalho, pudera, com uma vida tão enriquecidamente ocupada como a tua, alguma coisa teria que ficar para trás, que fique então a roupa por engomar…dizia de si para si!



-Realmente, tropeçara na pessoa certa…ela era essa pessoa!...sonhava acordado de olhos semi-cerrados pelo salgado das lágrimas que lhe rolavam entre uma cicatriz, que não feita em combate, mas sim combatendo pela vida, e nas agruras desta.



-Obviamente que terei que falar um pouco de mim, embora me guarde para mais em pormenor o fazer presencialmente contigo, pois entendo que assim é que deve ser, magicava Adelino ensaiando frases sobre frases para que melhor a coisa saísse!



-Estive em comunhão com  Andreia tantos anos em  metade dos que levo desta vida de encantos e desencantos do qual brotou do ventre materno em hora de milagre um rebento de seu nome Anália, que perfaz tantas primaveras,tantas as que ela por bem entender.



As coisas começaram a correr menos bem há cerca de uma década por motivos vários, entre os quais talvez o cansaço e rotina de uma vida que nos empurra para coisa nenhuma, e não havendo ainda uma réstia de chama que colmate esse cansaço, o desfecho é inevitável…e foi mesmo!



Deus diz que o sofrimento é uma benção que devemos entender como uma oferenda para que mais facilmente entendamos o quanto seu filho sofreu na cruz,e por nós muito fez.Levando á letra,tal e qual segui exemplo do filho do Criador.Não pregado na cruz,mas levando-a onde os olhos lêem a vida,rasgando-a , intervencionado a uma coisinha má como se dizia lá na terra, que me alugou a face qual pastilha elástica grudada em sola de sapato. Foi muito mau e muito duro. Um dia te contarei mais em pormenor esta fase menos boa da minha vida.



Tenho meio século, um pouco mais, como sabes, e entre muitas coisas más,boas vieram também,uma é mesmo impagável,a sensação que tenho de viver como um passarinho fora da gaiola,voando a favor dos ventos Alísios. Mas também desta matéria me reservo para contigo falar olhos nos olhos.

Não vale a pena estar com rodeios, empatizei contigo desde o primeiro minuto que nos cruzamos, para não utilizar outro adjectivo mais carinhoso, e estou-me a lembrar como ficaste reborizada e encabulada quando disse o quanto de ti gostava …percebeu-se desse lado um sorriso timido e embaraçoso.



Obviamente que sei que não vives sozinha,talvez com Deus também em circunstâncias as quais sei muito poucas, apenas algum comentário que fizeste aqui e acolá.



Manuela, sem qualquer pretensiosismo vou-te dar o que  quiseres de mim, nunca extravasando ou passando o limbo do razoável, pelas razões já apontadas. Eu vivo sozinho,quiçá acompanhado por vezes tentando acreditar que Ele existe, e sem ter que dar satisfações a ninguém,a Ele talvez,mas a convicção não chega a tanto ao contrário de ti.Talvez os ventos Alísios te inspirem também num  livre voo,e livre refaças a tua vida.



Vou deixar que sejas tu a gerir a situação a teu bel-prazer, convicto e esperançado que vá fazendo parte da tu vida, reforçando que te darei o que tu de mim bem te aprover, não forçando coisa alguma. É uma forma de estar na vida, é a minha filosofia desta!



…E vencido pelo cansaço, fechou de vez os olhos, para sempre, e eternamente o livro também.

4 comentários:

acácia rubra disse...

Não há nada coo serem páginas soltas.
Podemos fazer delas o que quisermos. O grave é querermos arquivá-las numa sucessão cronológica...

Gostei, como já é costume.

Está tudo bem contigo? Já tinha dado pela tua falta.

Beijo

P. Moisão disse...

Páginas soltas que juntas prefazem um belo livro de pensamentos soltos.

Beijo

AVOGI disse...

Páginas soltas ou poesia À solta?
kis .=)

Anónimo disse...

Pois é...e o livro escreve-se todas os dias mesmo quando se repete o conteúdo em páginas diferentes. Soltam-se as páginas ou páginas soltas?
Beijinho. É um prazer ler-te