quarta-feira, 14 de julho de 2010

Sem ponteiros...o tempo!

Mãos rudes do arado agarrar, por tantas terras lavrar, e o sol a brilhar na velha prata trabalhada em fino recorte, como se a um fidalgo pertencesse o relógio, feito para voltas e voltas dar sem cansar. De fidalgo apenas tinha o cão, que o nome herdara de uma fidalga, mãe sua, de descendência canina, pois então, não de família, mas porque o velho abegão assim resolveu lhe chamar. Horas cansadas a olhar para o tempo, e o tempo passado a olhar para a prata dos velhos ponteiros sem parar. E Eram tantas as horas passadas sem que as horas contassem como o tempo. O relógio andava ao ritmo da vida, voltas e mais voltas, acabando sempre por dar as mesmas novas ou velhas de tanto olhar, já tudo lhe parecia nem novo nem velho, apenas lhe parecia que o relógio já nem horas dava.Limitava-se a andar, à volta do pulso preso por uma velha pulseira de cabedal, que lhe recordava quão fortes tinham sido em tempos idos, não tantos assim, pois os ponteiros ainda por lá rodavam, e sempre na mesma direcção, que nem assim o orientavam em certa direcção. Caia sempre para o lado errado, ou errado estava o lado para onde caia, e nem sequer tinha a ver com o ébrio, sóbrio, ou embriagado de uma vida de canseiras, tormentas e bebedeiras de tanto suor lhe escorrer pelos lábios cerrados e revoltados com a sina que lhe havia calhado em sorte sua sem sorte de tanto amargo cismar e não ter vontade de amar coisa alguma. Mas com os ponteiros sempre a girar, sem parar, e tanta vontade tinha ele de não mais o olhar, os ponteiros a girar. Tantas horas e voltas sem parar, uma vida inteira sem eira nem beira, um relógio cansado de trabalhar, e ele, de tantas voltas lhe dar para que um dia não voltasse a parar…e parou! Não por falta de pulso onde acasalar, com os ponteiros sempre a andar, mas já em mão morta a trabalhar…o relógio!


A enterrar foi, não o contador de horas, que esse fanou o coveiro, quando distraído estava o fidalgo, nobre cão que em horas de aflição, doença ou compaixão nunca largava o abegão…e tão emocionado estava o canino com a morte de seu dono, que não reparou no surripiar do contador de tempo de tantos tempos, porque se assim não fosse, o velho dono a terra o comeria com horas e o coveiro ficava sem mão, de ladrão…assim lhe contou seu avô ao calor da braseira numa noite longínqua de serão…e o velho relógio lá continua pendurado, andando cansado sem parar, na pequena bolsa do jaquetão do coveiro…ladrão!

31 comentários:

XR disse...

Bravo, Vitor!
São destas histórias sem tempo, ou com tempo de ler, tempo de viver mas sem tempo contado para apreciar, que vivem as "nossas" partilhas.
E com o tempo... gosto cada vez mais de passar algum tempo - a ler-te!

Bjs!

Vitor disse...

XR:Fiquei sem palavras para te agradecer o simpatiquíssimo comentário...mas com algumas letras, ou todas, para dizer que é por ti, e gente como tu, que modestamente vou juntando umas letras e contando histórias que me ocorrem do acaso, ou não. É um prazer saber que me dás um pouco do teu tempo...a ler-me!
Obrigado.

Bj*

Isa GT disse...

O coveiro roubar-me depois de morta é coisa que não me preocupa, agora andarem-me a roubar em vida e por aqueles que nos deviam governar, aí já é outra história ;)

Bjos

P. Moisão disse...

Entre linhas,dizes tudo…a vida de tanta gente,que até na morte não é poupada a tanto sofrimento e humilhação!

Bj*

acácia rubra disse...

O teu texto fez-me lembrar um pedaço do Sermão de Sto António aos Peixes do nosso grande Padre António Vieira.

Muito bem explorada a visão da vida através do relógio e também a dos que não respeitam o alheio.

Beijo

Vitor disse...

Isa GT:Roubados somos em vida,da dignidade...depois roubam-nos a honra em mortos...é assim a vida,dizem alguns,porque lhes dá jeito,digo eu!

Bj*

Vitor disse...

P.Moisão: Triste sina de quem já sem sorte nasce...parafraseando alguém."...Se tiveres sorte, serás um grande desgraçado..."

Bj*

Vitor disse...

Acácia rubra:Fico feliz por teres entendido na perfeição a minha mensagem,nem outra era de esperar de ti...obrigado por tal!

Bj*

Anónimo disse...

Vítor,as voltas que a vida nos troca,está bem patente nas voltas que deste para nos contar mais uma das tuas histórias.gosrei das voltas do "teu" relógio.

B.A.

Juci Barros disse...

Instigante, escreveu de modo que no ritmo do tic-tac do relógio.
Beijos.

Fê-blue bird disse...

Meu amigo:
Desculpe-me a ausência, outros afazeres, muitas horas a trabalhar às vezes sem rumo ;-)
Cada vez escreve melhor está um verdadeiro contador de histórias. Parabéns!
Gosto particularmente de todas que têm a ver com tempo, ou eu não pedisse 5 minutos do seu tempo :-)
Quando puder passe no meu blogue tenho lá uma surpresa para os amigos.

beijinhos e bom fim de semana.

pekenasutopias disse...

Vitor, gostei mesmo muito deste seu conto! Muito, muito bom!
Alguns de nós, os que nos vamos desgastando por aí através das palavras, temos destes momentos felizes, em que conseguimos falar mais e melhor do que aquilo que pensavamos conseguir. Estou segura de que este é um deles. Adorei!

- disse...

...O tempo dás-nos a vida e começa logo com o seu tic-tac
Faz de nós corredores de fundo...e até pára ás vezes, por nos poder gozar...mas até ele fica sem tempo quando nos acaba a nós o k ele nos dá...TEMPO
Do teu mano...sempre com tempo
Carlos

- disse...

...Ainda a tempo!
Mano...Irmão!
O tempo deu-me o 1º lugar em singles para o melhor trabalho entre 1980 e 1983.
Brevemente vamos dar uma entrevista na Rádio Iris.
Nem sempre o tempo está contra nós.
Ás vezes é dar tempo ao tempo.
Fica o sitio da votação

http://boom-rock.blogspot.com/


Novo abraço
Carlos

Vitor disse...

Mano estás em alta...em alta mesmo!Já votei no melhor mano do mundo!

Abraço

Vitor disse...

B.A.-Goostei que gostasses do meu relógio.

Vitor disse...

Juci Barros:Instigante mesmo.

Bj*

Vitor disse...

Fê-blue bird:Ainda bem que gostas como conto as vidas de muita gente...e sim,vou passar no teu blogue.

Bj*

Vitor disse...

Maria João:O elogio vindo de si,é sinónimo de felicidade redobrada para mim...obrigada!

Bj*

alfa disse...

Vitor, o tempo não existe a não ser nos relógios que trazemos connosco...apesar de tudo, uma vida que foi vivida ao ritmo do relógio, merece agora deixar de o ser...jaz,em liberdade.O coveiro ladrão ficou contente e não se apercebeu que passou a ser escravo...do tempo. bjs

Fê-blue bird disse...

A minha surpresa está neste link:

http://sotepeco5minutos.blogspot.com/2010/07/para-todos-quem-so-pedi-5minutos.html

Beijinhos

Vitor disse...

História de uma vida,Ana…ou a vida numa história!

Bj*

rouxinol de Bernardim disse...

Excelente texto a patentear uma estética literária muito digna de realce.
Gostei.

OpálaSpirit disse...

deixeu uma coisita pra si no meu blog! dê uma espreitadela!:)
Abraço

redjan disse...

Mmmmmmm ...coisinha com sabor a non-sense ! You see ? Vale a pena ir encontrando o caminho !
Um destes dias arremedamos uma ' conversa de loucos a dois ' !!!

Vitor disse...

rouxinol de Bernardim:Ainda bem que assim pensas!

Abraço

Vitor disse...

Ópala Spirit:Estou a caminho!

bj*

Vitor disse...

Amigo jan,é da tua,nossa loucura que gosto...e venha de lá essa conversa!

Fê-blue bird disse...

Amigo:
Até Setembro, estou de saída para férias, fique bem desse lado ;-)
Beijinhos

Vitor disse...

Fê-blue bird:Boas férias então,que aqui por este lado se faz o mesmo!

Bj*

Maria Luisa Adães disse...

Vitor

Paraste os relógios da Terra?

Olha qie isso deu uma grande confusão e eu dei por isso...

Muito bom o que escreveste!

Beijos,

Mª. Luísa